Hoje eu choro
Hoje eu choro
Choro sem medo.
Sei que vai passar.
Choro sem explicação.
E o que realmente muda a explicação quando o que meu corpo e a minha alma pedem é alívio?
Ainda vem um resquício:
“Mas pra quê chorar agora? Só por isso?”
Mas, quase ao mesmo tempo, eu permito.
Permito que as lágrimas caiam sem julgamento.
Permito que me atravessem.
Sem exigir um motivo importante o suficiente para autorizar o que sinto.
E, quando têm permissão, é isso que fazem:
passam.
Passam em ondas, às vezes silenciosas,
e me deixam mais leve.
Se depois o motivo se revela, ótimo.
Se não, tudo bem.
Por que o choro, ainda que silencioso, incomoda tanto?
Existe uma pressa em silenciar, em resolver, em entender,
como se só fosse permitido sentir aquilo que já foi explicado.
Raro é quem sustenta o desconforto de apenas estar ali.
Apenas acolher.
Sem tentar corrigir, interromper ou traduzir.
Talvez por isso, tantas vezes, chorar sozinha seja mais fácil.
Não precisar justificar já é um alívio.
Porque, quando você não sabe o motivo,
ou quando ele parece pequeno,
o seu choro corre o risco de ser invalidado.
É claro que, em muitas ocasiões, os motivos são visíveis.
Nomeáveis. Evidentes.
Mas, em outras, eles estão guardados.
Intrincados em uma rede construída ao longo de toda a vida.
E talvez não seja sobre entender.
Talvez seja apenas sobre permitir.
Permitir-se ser atravessada.
Permitir que o corpo faça o que precisa fazer.
E confiar que, às vezes, o choro já é, em si, um movimento de cura.

